Sabe aquela coisa que está no meio? Clichê? Sempre achei podre e ridículo; coisa bem “novela” isso de manter as aparências. Não mostrar por medo, vergonha ou outro motivo qualquer o que realmente ta acontecendo. Desejar, tentar e convencer os outros e as vezes até a si próprio de uma realidade inventada, uma impressão falsa. Quando por vezes via isso em algumas pessoas próximas a mim, sempre achava tão hipócrita, tão ridículo, tão baixo, infantil. E então agora me pego fazendo tudo que sempre repudiei; exatamente pra isso: manter as aparências. Coisa ridícula. Nenhum deles paga minhas contas, nenhum deles tem nada a ver com minha vida. E ainda assim, foi isso que me manteve ate aqui. As aparências. Essa coisa de novela, relacionamento de fachada. Pensando bem, minha vida sempre foi mesmo um pouco “novela”. Essa atuação, isso de convencer os outros, fazer os outros acreditarem por vezes no que eles querem acreditar, por vezes no que EU quero que acreditem. Sempre fui assim. Isso sempre me acompanhou. Essa capacidade de fingir, esse “dom” do convencimento. Minha mãe chama de “astúcia”, mais uma enganada por mim, que dá outro nome aos meus fingimentos pra se confortar talvez, apaziguar a mente e o coração e poder dizer por ai: “Tenho uma filha ASTUTA” ao invés de FINGIDA que é uma palavra que pega tão mal. Deve ser por isso que ouço tanto que estou na profissão certa. Como meu pai me disse uma vez: “Minha filha, um júri é um palco de teatro, onde ganha quem interpretar melhor”. E é verdade pai! Acho que foi um dos atrativos dessa profissão pra mim. O fingimento, a manipulação... Sinto uma identificação, acho mesmo que tenha uma carreira brilhante pela frente. O único problema nisso tudo é a contradição. Notou que comecei falando que sempre repudiei fingimento? E agora já to falando que me identifico com ele. Difícil mesmo me entender, acompanhar meu raciocínio... não me leve a mal, sou de gêmeos, sabe, muito intensa, ou 8 ou 80, altos e baixos, extremos. Talvez seja exatamente por essa identificação que eu odeie tanto mentiras. Por saber como ela funciona, conhecer a fundo as engrenagens dessa teia de aranha. Sei onde elas podem levar, e já me levaram muuito longe! Claro que olhando pra mim ninguém diz. E por quê? Porque desde pequena fiz bem meu trabalho naquilo que mais odeio: “manter as aparências”. Quem quiser e puder me convença do contrario, mas eu cai na mediocridade junto com todo mundo mesmo. =/

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