Com certeza
você já deve ter ouvido aquela frase “home is where your heart is.” (Lar é onde
seu coração está.) Pois bem, sempre achei que eu fosse uma pessoa muito urbana,
pregava amar o cinza, o barulho, a correria da cidade, as roupas de marca, mas
por volta de dois anos para cá, (um ano e oito meses para ser mais exata)
descobri um lugar que roubou meu coração. O sertão. Uma cidadezinha, chamada
Delmiro Gouveia. Divisa com Paulo Afonso – BA.
Lá encontrei
uma cidade pacata, de interior, mas mais desenvolvida do que minha ideia
retrógrada e preconceituosa imaginava. Delmiro só tem me dado presentes bons,
desde que lá cheguei. Primeiro foi um dos melhores carnavais da minha vida, e
com ele, meu namorado, que me apresentou a uma segunda família. Além disso, me
deu de presente momentos dos quais nunca vou esquecer, e que hoje em especial,
estão vindo com tudo na minha memória.
Estou
lembrando do cheirinho de comida que vinha da cozinha, enquanto tia Lela
gritava por nossa ajuda pra pôr a mesa. Estou lembrando da calmaria da rua, da
casa, do canto dos pássaros. Estou lembrando de acordar com o arranhar do Deco na porta, pra deixá-lo entrar e
pular na cama ao meu lado, voltando a dormir com a patinha acariciando o meu
rosto. Estou lembrando de levantar cedo, e ter tio João sentado à mesa, com seu
copo de cerveja, e a carne de bode como tira-gosto, cantando ‘Os Nonatos’
acompanhando o som que sai do rádio velho, com Conca nos seus pés.
Estou
lembrando de ajudar Marcela a trocar o curativo da Lobinha passando mal pelo cheiro de sangue coagulado e bandagens,
mas mesmo assim, ajudar, porque só tinha eu mesma pra ajudar. Estou lembrando
de sair de casa e ir sentar no banco da praça, e o pessoal ir passando, e ir
ficando, e quando a gente se dá conta, tem uma galera enorme conversando,
bebendo, brincando, dançando, cantando. Estou lembrando de ficar na rede
olhando o céu estrelado esperando a “fila” do banheiro pra sair a noite pros
shows na praça no sábado a noite, e chegar em casa bêbados, um carregando o
outro, pra ir assaltar a geladeira e a comida que tia Lela deixou preparada
esperando para quando chegássemos varadas de fome.
Estou lembrando
de tudo que é bom, e desejando muito mais de tudo isso. Pela primeira vez,
estou pensando que “por que não?” Por que não ficar lá? Por que não tentar?
Talvez seja só
eu e minha mania horrível de me anular para estar ao lado de quem amo. Talvez seja
minha impulsividade, irresponsabilidade até! Mas o que sei, é que por hoje, eu
queria estar lá, eu queria aquela vida pra mim.