sexta-feira, outubro 15

keep going.

Os dois jamais falavam da morte inevitável de Rubria quando estavam juntos. Era verdade que o corpo jovem da menina se ia fazendo arredondado, com a doçura da puberdade que se aproximava, embora ela fosse dois anos mais moça que Lucano. Também era verdade que seu bonito rosto moreno estava mais cheio e alerta com a alegria de ser jovem e querida, e que seu apetite melhorara, podendo ela, em curtos intervalos, brincacr vigorosamente com Lucano. Mas sua doença mortal, Keptah o sabia, permanecia latente. Para Lucano, era bastante estar junto de Rubria, tocar-lhe a pequena mão quente, trocar com ela olhares divertidos, à custa de Cusa, correr pela grama e apanhar uma flor imensa, vermelha e umida, para colocar atras da orelha da menina. Atiravam bolas um ao outro, rindo e gritando. Imitavam o chamado dos passaros, e olhavam com respeito e amor os pequeninos animais selvagens da floresta. Havia momentos em que ficavam tão dominados por uma alegria inenarrável, que apenas podiam olhar nos olhos um do outro, com radiante gozo e timidez. Dia a dia, Rubria fazia-se mais bela, mais amada pelo seu companheiro de brinquedos. As vezes, ele pensava: Com certeza Deus não levará de mim este tesouro, esta querida, esta irmã, este coração do meu coração. Sem Rubria não haverá canções, nem alegria no sangue, nem ternura, nem razão pra existir. Brincava com os cabelos de Rubria, como Diodoro havia brincado com o de Iris, e regozijava-se com suas madeixas sedosas, tão impregnadas de frescura e do pungente odor da vida. As vezes, sem se falarem, beijavam-se, e a sensação da face de Rubria encostada a face de Lucano dominava o menino em fervorosa beatitude. Tomava a companheira nos braços e sentia manter ali o mundo, e toda a beleza e doçura.
(Médico de Homens e de Almas - Taylor Caldwell)

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